Mística e Psicologia
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J. Ramón F. de la Cigoña sj
E-mail: ramonsj@etefmc.com.br
Falar de mística numa sociedade secularizada e multicultural parece ser uma utopia, mas é neste mundo dessacralizado e sem ídolos que podemos encontrar os rastros mais puros de Deus. Deus é incompreensível e a única coisa que podemos fazer é escutar sua palavra ou seu silêncio. Deus fala por metáforas e se revela misteriosamente na história e na vida de cada pessoa. Perceber a nossa TEO-grafia é entrar no mundo da graça.
A ciência desmistificou a religião e com isso nos sentimos como desprotegidos e paralisados. O que a ciência faz com a religião, purificando-a de muita poeira histórica, a psicologia também o faz com a experiência pessoal religiosa, tirando dela aqueles excessos “imaginários” que pouco ou quase nada tem a ver com Deus. A verdadeira experiência mística, perceber Deus naquilo que ouvimos, vemos e fazemos não tem medo da crítica das ciências, pois sabe muito bem até onde vai a fantasia e a projeção.
Alguns identificam a “mística” com o mais estranho dela, isto é com aqueles “fenômenos curiosos e/ou paranormais” que surgem em alguns “iluminados”; outros optam por experimentá-la naquela busca de comunhão sincera consigo mesmo ou com a realidade materia ou espiritual que os circundam. Tal experiência é fonte importante de conhecimento, comunhão e sabedoria.
Nesse imenso supermercado do religioso que surge por toda parte precisamos discernir para não entrar em canoa furada. Nem tudo o que reluz é ouro, nem o que leva a etiqueta de “religioso” é tal. Há muita propaganda enganosa e não pouca insensatez no mundo da imaginação e da afetividade.
É próprio da psicologia estudar e interpretar o que observa; e da mística experimentar, sem medos e receios, o inefável. Um não contradiz o outro.
Há uma mística dos “olhos fechados”, apofática (via negativa), passiva, que brota na mente e a ilumina, e ocorre quando a pessoa se afasta do barulho mundano, se esvazia e encontra o Tudo no nada. Então, as partes desaparecem e a pessoa como que arrebatada, unificada, perde a noção do tempo e do espaço. É a mística clássica, tradicional; experiência subjetiva do Transcendente e do Infinito.
Mas há também outra mística, a “dos olhos abertos”, katafática (via positiva), ativa, que ilumina a mente, toca o afeto e chega até o coração, traduzindo-se em gesto de serviço e ajuda. O coração, assim iluminado, se coloca a serviço daqueles que mais precisam. Esta mística de serviço encontra o invisível no visível e a Deus no meio do barulho do mundo. Santo Inácio de Loyola e a sua escola espiritual são expoente desta mística engajada. “O amor consiste mais em obras do que em palavras” (EE 230).
O amor abre o coração e os olhos, os ouvidos e as mãos para servir gratuitamente o diferente… A mística dos “olhos abertos” não tem medo do exame criterioso da ci6encia; como o amor tampouco o tem da verdade, pois ambos nos realizam plenamente.
Para pensar e partilhar: As Escrituras sem o sentido espiritual (“gnose” cristã ) vira literatura; a vida consagrada sem sua dimensão “mística” se esvazia.
1 Gnose, substantivo de gignósko, conhecer. É conhecimento interno e espiritual (em oposição à ignorância) e que brota de forma misteriosa e intuitiva, dando sentido à vida humana. O objeto da Gnose é Deus.
