ESPIRITUALIDADE NA VIDA COTIDIANA (Pe. Iglesias sj) 6° ENCONTRO
1. AS LUZES
Na Idade da Pedra, um homem trabalhava semanas para fazer umas duas ou três pontas de flecha, o que era muito útil para caçar. Uma curiosidade: este mesmo homem trabalhou mais algum tempo só para enfeitar essas flechas, adornando-as com folhas de louro. Aparentemente não havia muita utilidade neste enfeite. Os cientistas acreditam que tais ornamentos serviam para aplacar a ira divina. O interessante é perceber que, para agradar os deuses, era preciso fazer algo que fosse belo. Estas flechas são a primeira expressão estética humana de que se tem rastro. Tal descoberta foi importantíssima, porque fez parte da evolução animal para a humana.
Hoje, a beleza foi deixada de lado. A sociedade industrial separou o belo, do útil; tornou as fábricas muito produtivas, deixando a estética de lado. Não só o setor econômico, mas o mundo das idéias também esqueceu a beleza. Um teólogo importante dizia que Jesus seduzia pela sua bondade e sua beleza! Mas o que ouvimos falar é só da sua bondade!
R. Alves, atento a tais mudanças, propõe algumas perguntas para explicar a que está sucedendo em nossos dias:
- Insensibilidade estética?
- Medo do narcisismo?
- Teremos separado a bondade da beleza?
- Redução da teologia à ética?
- Ágape contra Eros?
Mas ele não concorda com esta ausência e argumenta, que na verdade, o propósito de Eros é o triunfo de Ágape, que o universo deve ser amado por sua beleza, que o ético não é um fim e que o propósito de todas as lutas heróicas por um mundo livre e justo é a criação de um jardim!
Nesta procura pelo amor, Vinícius de Moraes dizia que “beleza é fundamental”. Por quê? Porque “só ela tem manancial/ que mata as sedes do mundo” (H. Salvador de Lima), ou porque “entre todas as formas de expressão humana, a estética é aquela que, mais do que qualquer outra, é responsável por nossa felicidade” (D. de Massi), ou porque “a beleza é a sombra de Deus sobre o universo” (G. Mistral). Ou como diz o mesmo R. Alves: “Da beleza surgem os amantes!” A experiência da beleza da criação faz arder em nossos corações, a vocação de sermos amantes de Deus!
“A estrutura humana é formada por uma mistura de coração, corpo e cérebro: O corpo precisa de pão pra se alimentar, o cérebro precisa de idéias pra se alimentar, e o coração? Ah… este precisa de beleza pra se alimentar!” (Virgínia Woolf)
Não só de pão e idéias o homem ou a mulher viverá, mas de toda beleza que vem de Deus! Temos fome de beleza! E a humanidade é aquilo que tem fome. Como encontrar a beleza? É simples: abrir a vida à contemplação! Contemplação é o “olhar/ que em tudo descobre encanto/ vindo de Deus para nós!” (H.S.L.)
Exemplo prático: pessoas que fazem curso de artes plásticas passam a apreciar os detalhes de uma obra de arte: o sentido, o significado, a beleza. Outro exemplo poético: a experiência de contemplação feita pelo “Operário em Construção” (V. de Moraes):
“O operário emocionado
Olhou sua própria mão,
Sua rude mão de operário
De operário em construção.
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão,
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.”
Me disseram, certa vez, que todas as coisas que existem à nossa volta, foram as premiadas num concurso de beleza. As obras mais bonitas vieram parar aqui, neste jardim do nosso mundo: A árvore, o pássaro, o Sol, a Lua, a flor, o peixe, o mar…
A beleza está presente da ponta do nosso dedo até o mais longe do universo! Para percebê-la, basta abrir nossos sentidos e prestar atenção: dois ouvidos para escutar, dois olhos para admirar e a vida inteira para se encantar! Dizem que os pastores, ao escutarem os anjos cantando pelo nascimento de Jesus, ficaram extasiados com os cânticos de glória!
Foi Santo Agostinho passear no jardim e disse:
“Perguntei à terra,
perguntei ao mar e profundezas
entre os animais viventes às criaturas que rastejam.
Perguntei aos ventos que sopram
E aos seres que o mar encerra.
Perguntei aos céus, ao sol, à lua e às estrelas,
E a todas as coisas que se encontram
às portas da minha carne:
Minha pergunta era o olhar que eu as olhava
Sua resposta era a sua beleza.”
Quando nos emocionamos diante da beleza um novo universo é criado.
2. AS SOMBRAS
O homem tem uma dor profunda e antiqüíssima, pois o mal começava a existir e já esse espinho se cravava em sua carne. As pessoas ao examinar sua história, ao contemplar o mundo em que vivem, ao se ver e ver os outros, vêem sombras, muitas sombras: natureza degradada, grandes guerras entre os povos, entre as pessoas; mentiras, traições, invejas, egoísmo, cinismo, crueldade, miséria, corrupção… Em uma palavra, o mal, essência da SOMBRA, toca todo o universo humano.
A Sombra, como diz o nome, é um lugar escuro. Por ser escuro, não se vê o que está ali. Por não se ver, é o lugar ideal para esconder muitas coisas que não gostamos em nós: em primeiro lugar, traços de personalidade negativos e que, certamente, necessitam de cuidado. Encontramos também atitudes que foram censuradas, reprimidas, e que provavelmente nos fazem parecer pessoas más e inferiores aos outros. Enfim, coisas de que nos envergonhamos: fragilidades, medos, complexos, dificuldades, inferioridade, fracassos, idéias negativas sobre nós e os outros… Muitas outras coisas escondidas na sombra estão ali por um grande engano: valores não reconhecidos, aspectos positivos e criativos da personalidade e que um dia acreditamos fossem problemas…
Tudo o que é humano tem sombra. As pessoas têm sombra, as situações têm sombra, as relações têm sombra. E a sombra vive em nós, é parte de nós como uma espécie de “segunda personalidade”. Muitas vezes nós, espantados, a vemos agir, assustados de que tal atitude ou tal sentimento tão reprováveis tenham saído de nós, ou aquelas características que tanto detestamos nos outros repetidamente apareçam em nosso próprio comportamento. Dizia São Paulo: “Não faço o bem que quero, mas o mal que detesto”. E Santo Agostinho: “Então eu não sou eu mesmo, Senhor meu Deus?” Você já experimentou essa divisão?
Vivemos num mundo profundamente dividido. Nossa cultura é neuroticamente extrovertida, uma cultura da aparência, do poder, e onde padrões rígidos e maniqueístas regem o que é aceitável e o que não é aceitável. Pelos ditames da cultura, sabemos o quanto é complicado valorizar uma pessoa de menos posses, menos dotada de beleza física, um idoso, um deficiente, e até uma mulher mais gordinha ou um homem menos musculoso!
O ser humano, vitimado por esse modo de pensar, foi se dividindo e rejeitando-se a si mesmo sem nenhuma reflexão nem discernimento, simplesmente obedecendo à pressão dos valores vindos de fora: tem que ser forte, belo, poderoso; tem que vencer sempre. Se não, não é apreciado, não é amado, não é aceito. E, claro, também não aprecia, não ama, não aceita. Quais são as conseqüências?
A primeira: nos retiramos da possibilidade de uma verdadeira experiência de AMOR. Quem rejeita, nega e esconde partes de si mesma jamais vai se sentir aceita e amada e, portanto, não pode amar.
A segunda: perdemos também a compaixão. A compaixão é espalhada na terra por aqueles que, tendo uma profunda experiência de compreensão e aceitação de seus limites, de suas perdas, de suas dores, são capazes de perceber o coração do outro e penetrar no sentimento dos que sofrem oferecendo consolo, iluminando caminhos, partilhando modos de superação.
Bastam estas duas conseqüências para ver onde foi que nos perdemos do maior dos Mandamentos: Amarás a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo …
Deus visitou os homens repetidamente e falou de amor a eles infinitas vezes. E na plenitude dos tempos veio habitar entre nós, enviando seu Filho amado para nos anunciar e fazer experimentar Seu amor. E não foi por coincidência que, para isso, Jesus se fez um ser humano como nós, experimentando em tudo a nossa condição, exceto no “pecado”, ou seja, exceto na nossa incapacidade de nos entregar sem reservas no oceano do amor do Pai. É colocando em Suas mãos nossas dores e nossa sombra, e deixando que Ele, como oleiro, trabalhe o barro que somos, que vamos experimentar a GRAÇA do seu amor, que nos amou primeiro.
O pecado é o silêncio diante do amor de Deus. Nisso é gerada a morte da harmonia do Criador com Sua criatura, a morte da paz, a morte da beleza. Nossa redenção consiste em nos abandonarmos cegamente ao amor de Deus, carregando com humildade e responsabilidade nossa natureza, para que Ele nos toque e, sob Sua inspiração e por amá-lO muito, nos transformemos naquilo que mais quer que sejamos: suas criaturas, seus filhos muito amados.
Para pensar e partilhar:
1. Reconhece que há uma região de sombra em você?
2. Reconhece que há uma região de luz em você?
3. Reconhece a ação de Deus (Graça de Deus) no seu mundo de sombra e luz?
Textos para a orar: Sb 11, 21 – 16; Mt 9, 10 – 13; Lc 7, 23 - 50

