Histórico ETE FMC
Sinhá Moreira
Não é fácil sintetizar o perfil de uma mulher extraordinária. Dizia Guimarães Rosa que as pessoas que viveram intensamente não morrem. Ficam encantadas. Permanecem presentes e atuantes nos que vieram depois e procuram seguir suas pegadas ou fazer germinar, crescer, florescer e frutificar as sementes que foram lançadas na sua passagem fecunda pela vida.
Assim foi Sinhá Moreira. A filha de Francisco Moreira da Costa, líder político, a sobrinha de Delfim Moreira, presidente da República, a menina sonhadora, amou ternamente sua família, apaixonou-se pela sua terra e sua gente simples e laboriosa. Foi construtora de ruas, casas e escolas na sua pequena Santa Rita do Sapucaí, sonhou o crescimento dos jovens com a educação e a promoção profissional. Reservava grande parte de seu coração de mulher para os doentes e os pobres.
Sua generosidade propiciou estudos em São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte para os jovens esperançosos de sua terra.
No final da vida vislumbrava um futuro diferente para os jovens, sabendo que uma Escola Técnica abriria para eles novos caminhos e catalizaria para sua cidade novos rumos de desenvolvimento. Aconselhada por professores do ITA de São José dos Campos lançou as bases da Escola Técnica de Eletrônica que leva o nome de seu pai. Obra pioneira no Brasil. Contou com o auxílio dos tradicionais educadores, os jesuítas, e não foram poucos os sacrifícios e dificuldades que não abalaram a fé e a determinação desta mulher de fibra.
Em 1959 nasceu a ETE. Em 1965 nascia o Inatel e, logo depois, a FAI. Três escolas de nível educacional e tecnológico exigente, com grande senso de empreendedorismo. Desde os anos 70, juntamente com o ITA e outros centros em São Paulo e Campinas, Santa Rita fez crescer, nucleado nas escolas, o cluster, pólo tecnológico que transformou a cidade provinciana no Vale da Eletrônica.
Desde março de 1963 os restos mortais de Sinhá Moreira, do alto da colina onde está o mausoléu de sua família, contemplam o vale do Sapucaí, vibrante de trabalho, de alegria, de esperanças. No céu, sua figura tutelar, recebe de Deus o prêmio por uma vida de amor, que se fez doação a sua terra e sua gente.
A memória de Sinhá Moreira deve permanecer entre nós para inspirar os que trabalham nas suas escolas, os que dedicam sua vida e talento ao crescimento dessa cidade. Sinhá nos ensina que a verdadeira riqueza só pode nascer do trabalho. Ela mostra que a felicidade não é estar na posse ou no gozo egoísta dos bens, mas na doação, na partilha, na amizade. “Os pobres me ensinaram as grandes lições da vida”, dizia Sinhá Moreira em seu testamento. Como diz a Sagrada Escritura, há pessoas que ainda nos falam depois de mortas. Mas, para isso, devem viver na memória do coração pelas suas lições de vida.
Vale da Eletrônica completa 20 anos
Em uma jogada estratégica de marketing e empreendedorismo entre governo municipal, iniciativa privada e instituições de ensino de Santa Rita do Sapucaí, foi lançada, há vinte anos, a idéia do Vale da Eletrônica em uma feira de equipamentos eletroeletrônicos em São Paulo. A intenção era transformar a pequena cidade mineira em uma das principais referências em tecnologia do país, uma versão brasileira do Vale do Silício, na Califórnia (EUA). “A nossa idéia inicial era chegar a um desenvolvimento como em São Carlos, São Paulo, ser o maior pólo tecnológico de Minas Gerais e conseguimos atingi-lo”, diz o ex-prefeito, Rogério Toledo Rennó, 59.
O município se destaca no desenvolvimento e produção de equipamentos eletrônicos, especialmente de telecomunicações e informática. O PIB per capita da cidade saltou de R$ 3.169, em 1985, para R$ 8.485 em 2002. A cidade passou de 207a lugar em arrecadação de ICMS em 1986, para 70a lugar no período de janeiro a setembro deste ano. A renda per capita média do município é de R$ 315,00 e situa-se 14% acima da estadual e 6% acima da nacional. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) aumentou 10%, passando de 0.72, em 1991, para 0.79, em 2000. De acordo com o Atlas de Desenvolvimento Humano, se o município continuar nesse ritmo, em aproximadamente 14 anos, alcançará o patamar de São Caetano do Sul - SP, cidade que apresenta o melhor IDH do Brasil (0.92).
As 115 indústrias do ramo eletroeletrônico do município empregam cerca de 7.500 pessoas e faturam aproximadamente R$ 530 milhões/ano. “Hoje o desemprego está baixo, é quase nulo, mas a qualidade de vida do trabalhador não melhorou, pois os salários são muito baixos, variando em torno R$ 323,00 em convenção coletiva”, explica a presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas, Materiais Elétricos, Eletrônicos e Informática de Santa Rita do Sapucaí, Conceição dos Ouros e Cachoeira de Minas, Maria Rosângela Lopes, 50. Só com exportação Santa Rita faturou US$ 900 mil em 2004. E visando ampliar esse mercado, as empresas do ramo eletroeletrônico estão passando pelo processo do programa Rumo a ISO 9000 para padronizar seus produtos. “Optamos por essa certificação para crescermos de forma organizada e produzir o que o mercado pede. Os resultados já estão aparecendo e a nossa meta é exportar 30% da produção em 2007”, explica o empresário Rudi Bouret Bayer, 38, diretor da empresa Nitrix, que conquistou a certificação no mês de julho deste ano. O certificado ISO 9000 é uma exigência do mercado internacional para o setor, além de auxiliar no sistema de gestão das empresas. Na opinião do ex-prefeito Ronaldo de Azevedo Carvalho, 62, para a concretização do pólo tecnológico a cidade precisa de uma tecnópolis, pois já possui duas incubadoras e um condomínio de empresas, que é o Centro Empresarial Paulo Frederico Toledo. “Para fechar o pólo tecnológico de Santa Rita só está faltando uma cidade técnica, uma tecnópolis. Já temos em vista uma fazenda de 105 hectares, ou seja, 1 milhão de metros quadrados para esse projeto. É um empreendimento caríssimo, mas que temos que começar”. A idéia é construir um complexo que abrigue em torno de 250 a 500 empresas de pequeno e médio porte de base tecnológica e de prestação de serviços, além de agências bancárias, restaurantes, bares, hotéis, centros de capacitação e áreas de lazer.
Para o sociólogo e secretário Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação, Elias Kallás, 70, a cidade está em uma região altamente desenvolvida e possui uma economia bastante sofisticada. Acredita que o município irá se desenvolver, mas sempre apresentará características de cidade do interior, não ultrapassando os 100 mil habitantes. O fato da educação municipal e estadual não acompanhar o modelo de educação implantado no ensino superior do município, baseado na tecnologia da informação, ainda preocupa o sociólogo. “Temos que acabar com a defasagem que encontramos hoje no ensino convencional, incluindo as crianças carentes nesse processo. Deve haver um projeto que preserve a universalidade do ensino regular e tenha características da economia local, estimulando o aluno a fazer pesquisas e usar os recursos, como internet e teleconferência, para ampliar seus conhecimentos”, diz Kallás.
Sinhá Moreira contagia a cidade com o sonho do progresso
Na sociedade vigente até o início do século XX, a vida das mulheres brasileiras era basicamente o cuidado da casa, do marido e dos filhos. Mas os ideais de Sinhá Moreira ultrapassavam uma vida de submissão, o espírito empreendedor sempre falou mais alto e seu pioneirismo reflete na sociedade santa-ritense até os dias de hoje.
A psicóloga Marly Barbosa Fontes, 68, conta que, em 1960, quando estava casada e com três filhos, para mostrar a sua felicidade às primas Sinhá Moreira e Maria do Carmo Moreira convidou-as para visitá-la em seu apartamento no Rio de Janeiro. Porém, se surpreendeu quando Sinhá questionou-a sobre o que estava fazendo para a sua realização pessoal. “A mulher não deveria viver só em função do marido, tinha que ter objetivos próprios, a vida não era só casar e ter filhos. Na hora não gostei do comentário, só depois fui compreender a sua visão”.
Ainda segundo Marly, Sinhá desde moça se preocupava com os menos favorecidos, recolhia roupas e sapatos de suas primas ricas e distribuía aos pobres. Chegava a se ajoelhar para experimentar sapatos nos pés das pessoas, sendo um dia chamada a atenção por sua mãe, Maria Rennó Moreira. Quando se formou como normalista, parte do dinheiro que ganhava dando aulas reservava para os pobres.
Casamento - Segundo o ex-motorista de Sinhá, Expedito Jacob Gabriel Andery,73, a grande decepção da vida de Sinhá Moreira foi seu casamento em 1929. De acordo com os costumes da época, seus pais procuraram um pretendente entre os primos de primeiro grau. Na opinião de Regina Bilac Pinto, 70, sua tia casou-se aos 22 anos contrariada, pois era apaixonada por um caixeiro-viajante de São Paulo, chamado Olindo. O casamento com o diplomata Antônio Moreira de Abreu lhe proporcionou conhecer diversos países, como Estados Unidos, México, Japão, Bélgica, Portugal e Colômbia. O casal retorna ao Brasil em 1936, no ano seguinte, apesar de muito religiosa e conservadora, Sinhá pede a separação. “Foi muito difícil para ela, pois seu marido era muito avarento. Depois que a carreira de Tonico foi interrompida devido a sua cassação, o casal passou por dificuldades financeiras”, diz Regina. A família não soube os verdadeiros motivos do desquite, para alguns a convivência do casal se desgastou devido ao gênio difícil do marido.
Em 1937 volta a morar com os pais e retoma seus trabalhos sociais, assumindo papel de líder comunitária. Para alavancar o desenvolvimento do município utilizou os recursos de sua família provenientes das fazendas de café e aplicações bancárias. Após alguns anos, em 1951, o seu ex-marido faleceu. Segundo Francisco Moreira da Costa Neto, 60, havia um homem apaixonado por sua tia que queria até se casar, mas Sinhá nunca quis se relacionar devido à ilusão que teve com o primeiro casamento.
Mulher empreendedora - Segundo o sociólogo Isaías Pascoal, 46, na sociedade mineira até 1970 não havia abertura para uma projeção social e cultural mais acentuada das mulheres. Era uma sociedade rural, centrada na figura do homem como chefe, resolvedor de todos os problemas. “Sem dúvida, a mulher casada era a companheira do homem e muitas vezes ele levava em consideração as opiniões dela, mas mulher líder, arrojada, empreendedora, como Sinhá Moreira, absolutamente não era padrão da época”.
Certa vez, como conta o prefeito de Santa Rita do Sapucaí Ronaldo de Azevedo Carvalho, 62, Sinhá precisava de uma audiência com o ministro da Educação, Clóvis Salgado, mas não conseguia agendar nem por telefone nem pessoalmente em seu gabinete. Decidida, foi até o apartamento do ministro antes das seis horas da manhã. Quando a empregada abriu a porta para comprar pão e leite, ela entrou no apartamento e sentou-se no sofá à espera do político. “Esse fato demonstra claramente sua força de vontade e decisão. O ministro praticamente foi obrigado a atendê-la de pijama e chinelos”.
De acordo com o professor do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) Mário Augusto de Souza Nunes, 61, em toda palestra que ministra pelo país sobre empreendedorismo cita Sinhá Moreira como exemplo. “Ela tinha o sonho de melhorar a comunidade em que vivia. Disparou esse processo de sonho coletivo que se mantém até hoje. O sonho de progresso, com capital humano e um capital social forte. Todos nós queremos que Santa Rita cresça como ela desejou”.
Santa Rita inaugura a primeira escola técnica de eletrônica da América Latina
Ao meio dia, sob o sol do Rio de Janeiro, uma mineira entra nas dependências do Arsenal da Marinha. Com seu prestígio político, Sinhá Moreira consegue autorização do ministro da Marinha para conhecer a única torre de eletrônica do Brasil, que controlava a travessia de barcas do Rio a Niterói. A visita durou cerca de seis horas e de volta para Minas Gerais, ela está entusiasmada com o que vira. Um ano depois, no dia 17 de setembro de 1958, vai até o presidente Juscelino Kubitscheck para buscar o decreto no 44.490, assinado por ele, instituindo o Curso Técnico de Eletrônica no Brasil. Com o decreto em mãos, Sinhá busca subsídios para a construção da primeira Escola Técnica de Eletrônica da América Latina “Francisco Moreira da Costa” no terreno de 131.000m2 doado por ela. Em 6 de janeiro de 1959, é assinado o convênio entre o Ministério da Educação e Cultura e a Fundação Dona Mindoca Rennó Moreira, mantenedora da ETE, para a construção do prédio.
A idéia que não veio do Japão - A viagem de Sinhá Moreira ao Japão em 1935 virou um mito para explicar a origem da Escola Técnica e até do Vale da Eletrônica. Lá ela teria vislumbrado um futuro diferente para o Brasil, conhecido muitas tecnologias que a teriam inspirado nesta iniciativa. Mas, segundo o major brigadeiro da Aeronáutica, Hermes Moreira, 68, sua amiga Sinhá não teve a idéia de fundar a ETE quando morou no Japão. “Ela não viu tecnologia nenhuma no Japão. Naquela época o país apresentava uma tecnologia avançada na área militar. A primeira idéia era de construir na cidade uma escola de química e não de eletrônica”, explica ele. Na verdade, a idéia inicial da escola tem várias hipóteses. Para Hermes, a idéia surgiu de várias pessoas que faziam parte da rede de contatos políticos de Sinhá. Na opinião do seu sobrinho, Francisco Moreira da Costa Neto, 60, pode ter surgido em algumas visitas que sua tia fez ao Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) na década de 50. E já para Regina Bilac Pinto, 70, outra sobrinha, a idéia surgiu em conversas com o professor da Escola de Engenharia de Eletrônica de Itajubá, Fernandes Neves.
Mudança de hábito - Em instalações provisórias, a ETE realizou o primeiro exame de seleção em 1959. Dos 46 inscritos, 13 foram selecionados para formar a primeira turma da escola. Com isso, a cidade passa por um grande choque cultural. O município, antes freqüentado apenas por famílias tradicionais dos coronéis do café, começa a receber estudantes de vários estados. Os pacatos moradores passam a conviver com pessoas de hábitos e culturas diferentes. O ex-aluno da ETE, Giuseppe Settimi Cysneiros de Oliveira, 66, conta que veio para a cidade em 1961, depois de ter lido um artigo da escritora Raquel de Queiroz, na revista O Cruzeiro, sobre a escola. “A sociedade local era extremamente conservadora, havia um certo bairrismo, as pessoas de fora eram vistas como estrangeiros”. Hábitos como andar de chinelo ou de short pelas ruas era uma ofensa aos costumes das famílias santa-ritenses. A sociedade também mantinha um certo preconceito contra os negros e os alunos da ETE ajudaram a mudar essa realidade.
Anos 60 - A convivência dos alunos naquela época era muito sadia. De acordo com o ex-aluno, Mário Augusto Souza Nunes, 61, os estudantes eram muito unidos e o grêmio da escola muito forte. Sinhá Moreira nunca descuidou dos seus alunos, mesmo deixando a escola sob a direção dos padres jesuítas, gostava de acompanhar o andamento dos estudantes de perto. Conta o prefeito da cidade e aluno da primeira turma da ETE, Ronaldo de Azevedo Carvalho, 62, que suas notas estavam baixas e Sinhá o chamou para conversar. “Ela ia todos os dias na escola para acompanhar os rendimentos escolares. Quando tirei notas baixas, me chamou em sua casa e perguntou o que estava acontecendo comigo”, relembra ele.
A escola, no início, tinha um relógio de ponto para controlar a chegada dos alunos nas aulas. Depois que tocava a sirene, o portão era fechado e os cartões recolhidos. Quem chegasse atrasado, era obrigado a entrar pela secretaria e justificar o atraso. “Esse sistema fazia que os alunos criassem uma responsabilidade com os horários, como se estivessem em uma empresa”, explica Giuseppe. Para inserir os alunos no mercado de trabalho, a escola promovia a interação da instituição com empresas. Em 1962, a própria Sinhá, para estimular os alunos da ETE, levou-os à IBM com o intuito de divulgar a escola e mostrar o mercado de trabalho que existia.
Os laboratórios da escola foram equipados com aparelhos doados pela Marinha de Guerra do Brasil, do Leste Europeu e da Alemanha.
O curso sempre foi integral com disciplinas técnicas, como eletrônica, telecomunicações e televisão, além de matérias do ensino regular. Já naquela época a escola mantinha convênios firmados com cerca de 102 empresas, como a Cemig, que auxiliavam alunos com bolsas de estudos.
ETE dos últimos tempos - O modelo pedagógico da ETE começou a mudar na década de 70 e 80 com a criação da Feira de Projetos Tecnológicos da ETE (Projete), que tem como objetivo a integração da escola com as empresas. Até 2005 a ETE formou cerca de 4 mil técnicos eletrônicos. Os cursos oferecidos são nas áreas de telecomunicações, automação industrial e computação. Atualmente mantém convênio com o MEC e com o Programa de Expansão da Educação Profissional (Proep). A escola possui 11 laboratórios e cerca de 220 microcomputadores.
Casas populares e crédito educativo uma novidade para Santa Rita nos anos 40
A primeira instituição federal para desenvolvimento urbano da história do Brasil foi o Banco Nacional da Habitação (BNH), criado em 1964, para realizar operações de crédito e gerar o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Mas, já em 1947, Sinhá Moreira idealizara a construção de casas populares para moradores de baixa renda. Comprou duas grandes áreas e montou a empresa Vista Alegre, especializada em construção civil. No início da década de 50, cerca de 80 famílias foram beneficiadas com o projeto. Os moradores deveriam pagar as casas em 10 anos e as prestações eram calculadas de acordo com a Tabela Price, um sistema de amortização em pagamentos iguais e sucessivos, utilizado em operações de crédito.
O administrador de empresas Marco Antônio de Mattos, 55, conta que o pai, Antônio Barbosa de Mattos, foi um dos primeiros compradores das casas construídas pela empresa Vista Alegre. “Meu pai era muito amigo de Sinhá, ambos eram correligionários políticos da antiga União Democrática Nacionalista (UDN). A casa, de 55 m2, foi comprada por Cr$ 55.500,00 e a chave foi entregue no dia 1o de novembro de 1951”. A família, segundo ele, ficou muito feliz com o financiamento, porque viviam em casa de parentes. O imóvel hoje custaria R$ 27.500,00.
Segundo a pedagoga aposentada Cilézia Alves Rocha Mardegan, 50, os imóveis eram exclusivamente para residência e, até a quitação da dívida, o morador não poderia fazer alterações em sua estrutura física. “Meu pai era empregado da empresa Vista Alegre e comprou a casa por Cr$ 48.200,00, acrescidos dos juros de 8% ao ano. Ele começou a pagar a partir do dia 1o de agosto de 1952 e, no ato do recebimento das chaves, deu uma entrada de Cr$ 7.500,00”. Se fosse nos dias atuais, o pai de Cilézia teria desembolsado R$ 21.500,00 para ter sua casa financiada.
Crédito Educativo – Para os alunos sem recursos, Sinhá Moreira ajudava com material didático, uniforme e merenda. Cilézia conta que, todo mês, ela recebia em sua casa os estudantes para verificar pessoalmente o boletim escolar de cada um. “Uma das suas exigências era que os alunos não tirassem notas abaixo de 7,5 pontos. Eu sempre ficava apreensiva ao mostrar as minhas notas, porque quando alguma criança saía chorando da sala, tínhamos certeza de que não seria mais custeada por ela”. De acordo com a professora aposentada, Ruth Alves Rocha e Souza, 67, além de boas notas, os alunos deveriam devolver os livros usados durante o ano letivo em perfeito estado para serem emprestados a outras crianças.
Conta o major-brigadeiro da Aeronáutica Hermes Moreira, 68, que Sinhá tinha uma visão extraordinária, queria que todos tivessem um futuro melhor, que não ficassem em Santa Rita para trabalhar atrás de um balcão ou na roça. Hermes relata que os seus estudos, desde do ensino fundamental, foram custeados por dona Sinhá e que ingressou na Aeronáutica graças aos seus incentivos. “A partir daí, ela não precisava mais se preocupar comigo, porque eu já estava encaminhado”.
O maior projeto na área de educação de Sinhá Moreira foi a fundação, em 1959, da Escola Técnica de Eletrônica “Francisco Moreira da Costa”. A escola, dizem antigos moradores da cidade, além de ser uma oportunidade de futuro para alunos locais, atrairia estudantes de outras regiões do país que, bem sucedidos, se tornariam ótimos “partidos” para as moças da cidade se casarem.
Isso de fato aconteceu com vários estudantes que se mudaram para Santa Rita na década de 60 e estão na cidade até hoje. O professor do Inatel e da ETE, José Antônio Justino Ribeiro, 59, ficou sabendo da escola em Vitória-ES e resolveu estudar no interior de Minas Gerais, pois na época não havia outros cursos técnicos nesta área. Apesar de sua família não ter condições de bancar seus estudos, quando chegou a cidade, recebeu auxílio da Fundação Dona Mindoca Rennó Moreira, mantenedora da ETE. A fundação disponibilizou material didático, roupas e moradia. “Quando saí da minha cidade, disse ao meu pai que voltaria, mas, desde que mudei em 1963, nunca mais voltei. Depois que formei na ETE, estudei no Inatel e resolvi seguir a carreira acadêmica. Casei-me em 1975 com uma moradora da cidade e tivemos três filhos”.
Outras obras sociais – Sinhá Moreira mantinha leitos em hospitais e sanatórios para tuberculosos e leprosos. A dona de casa Estelina Regina da Silva, 54, relembra dos tempos quando sua cunhada, Tereza Frauzina de Jesus, fazia tratamento médico em Campos do Jordão. “O médico da época, Antenor Pinto de Almeida, fez uma solicitação a ela para que pagasse o tratamento. Depois de oito meses a minha cunhada estava curada”.
De acordo com sua ex-copeira Flora Augusta Manuel, 80, todas as pessoas que subiam as escadas da casa de Sinhá, nunca desciam de mãos vazias, porque ela mantinha um estoque de alimentos e de tecidos para distribuir aos necessitados. “A casa dela era cheia, não tinha sossego para nada, nem para comer”. Quando alguém precisava de consultas médicas era encaminhado por Sinhá ao médico e com a receita em mãos recebia autorização para pegar os remédios na farmácia onde tinha crédito. “Na farmácia sempre recebíamos receitas de pessoas ajudadas por ela”, conta o comerciante aposentado Aluísio Carneiro Pinto, 78.
Em 1957, financiou a construção do Santo Cruzeiro e sendo festeira da comemoração dos quinhentos anos de morte de Santa Rita de Cássia, trouxe inovações para a festa, como as noites dedicadas aos costumes de países diferentes, as chamadas colônias. Foi nesta festa que a réplica do corpo da santa chegou a cidade.
Memória de Sinhá se perde com o tempo
Os turistas que visitam a praça central de Santa Rita do Sapucaí e alguns moradores da cidade não imaginam que, onde hoje funciona o restaurante Vista Alegre, era a casa de Sinhá Moreira. Os interessados pela sua história encontram dificuldades em obter um acervo organizado e catalogado sobre sua vida, já que não há nenhum museu em sua homenagem, livro sobre sua vida ou qualquer pesquisa histórica sobre ela.
Segundo o comerciante, José Norberto Dias, 57, a memória de Sinhá não está preservada e corre o risco de se perder com o tempo. “Achei errado o fato de sua casa ter virado ponto comercial, ali deveria ser um museu em sua homenagem”. A mesma opinião é defendida pelo jornalista Evandro Carvalho, 32, que acha que independente do local essa personalidade histórica merece um espaço de dedicação para preservar sua história. “Nós não temos um departamento que faça a catalogação da história e da cultura da cidade. Não só o nome de Sinhá está se perdendo com o tempo, mas também de outras pessoas importantes como Genoveva da Fonseca, Delfim Moreira, Francisco Moreira, entre outros”. A afilhada de Sinhá Moreira, Rita Bernadete da Silva, 47, acredita que os jovens nem saibam da importância de sua madrinha. “Nem o aniversário dela, que antes era até feriado escolar, é comemorado mais. A memória dela está bem abalada”.
A explicação da sobrinha-neta de Sinhá, Andréa Freitas Moreira Pinto, 41, para essa falta de zelo com a memória de sua tia-avó é a ausência de uma organização da administração pública. “Eu me sinto incomodada com o material que tenho guardado, mas só vou expô-los à visitação pública quando tiver um projeto sério do município”, diz ela.
De acordo com o sociólogo, Isaías Pascoal, 46, é muito comum o desleixo em relação ao patrimônio histórico. A maioria das cidades não tem museu ou casa de memória, construções antigas e documentos não são preservados, e as poucas cidades que os têm não cuidam devidamente. “No sul de Minas, a cidade que mais avançou na organização e preservação foi Campanha, as demais cidades capengam. Muitos documentos estão nas mãos de particulares, que os guardam de maneira ciumenta, não os disponibilizam para pesquisas. O mal disto é que a memória da cidade vai acabando, as raízes sociais e culturais se esvaem e fica-se com a idéia de que o tempo presente se basta a si mesmo”.
Para adequar a cidade no programa de incentivo e apoio cultural, o município reformulou a lei municipal no 3444/2000 de 23 de novembro de 2000, que dispõe sobre a preservação e proteção do Patrimônio Cultural. “No momento não tem nenhum projeto específico para a preservação da memória de Sinhá Moreira, pois a prefeitura está em fase de implantação da política cultural de preservação do patrimônio histórico. Depois dessa etapa vamos começar programas específicos e sem dúvida Sinhá terá um cuidado especial”, explica o presidente da Câmara Municipal, Magno Magalhães Pinto, 35.
Já houve uma tentativa de ter um museu em sua homenagem na Escola Técnica de Eletrônica “Francisco Moreira da Costa”. “Logo que entrei na ETE, em 1998, tínhamos a intenção de fazer um museu na escola, mas devido a dificuldades financeiras não foi possível viabilizar o projeto”, conta o diretor, padre Raul Laranjeira. Os poucos registros históricos sobre Sinhá Moreira podem ser encontrados na ETE, na Escola Estadual Sinhá Moreira e na Biblioteca Municipal para visita e consulta. Há também documentos e material fotográfico particular com a família.
O cinegrafista Luiz Carlos Lemos Carneiro, 61, possui um grande acervo particular de fotos e filmagens antigas de Santa Rita desde 1889. Um de seus desejos é produzir um vídeo- documentário sobre a vida de Sinhá Moreira. Já reuniu fotos e duas filmagens dela. “Quero fazer um vídeo com depoimentos de pessoas que viveram na casa da família e trabalharam com ela. É importante resgatar sua história, se tivesse um museu municipal em sua homenagem, eu apoiaria”. De acordo com o prefeito, Ronaldo de Azevedo Carvalho, 62, a Secretaria de Educação, que funcionava na casa do ex-presidente da República, Delfim Moreira, já foi transferida para outro prédio. “A casa de Delfim Moreira será transformada novamente em museu e ganhará uma sala em homenagem à Sinhá”, afirma Ronaldo.
De acordo com Regina Bilac Pinto, 70, um livro biográfico está sendo elaborado pela Editora Florence, de propriedade da família, com patrocínio da Companhia de Energia Elétrica de Minas Gerais (Cemig). “Sempre quis produzir um livro sobre minha tia, para divulgar nacionalmente e até mundialmente quem foi Sinhá Moreira. Se trabalharmos bem esse projeto, futuramente poderemos produzir até um filme porque é uma história muito rica”. Não há ainda uma data de lançamento, mas a previsão é para o final de 2006.
De acordo com o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico de Minas Gerais (IEPHA/MG), a preservação do patrimônio pode agregar recursos às cidades e promover a qualidade de vida. O patrimônio cultural tem significado, para muitas localidades, com sua paisagem urbana ou natural, importante receita derivada do turismo, reconhecida fonte de recursos na economia mundial. Além disso, face às diversas leis de incentivo existentes, é possível recuperar edifícios, aumentando postos de trabalho e agregar recursos para as comunidades.
Fonte: Jornal a Pioneira, um jornal experimental do curso de comunicação social (habilitação em jornalismo) da universidade do vale do Sapucaí, realizado sob a orientação da professora mestre Maria Eunice de Godoy machado Teixeira por Camila Pereira Ramos e Silvia Grada Rafael.
