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Pe. J. Ramón F. de la Cigoña sj
E-mail: ramonsj@etefmc.com.br
Trabalhei por muitos anos na Pastoral Vocacional e partilho com simplicidade algumas impressões aprendidas neste ministério.
Não tenho dúvi da: toda vocação é um mistério de amor. Ninguém se compromete com algo ou alguém se antes não foi atraído e tocado no seu coração. A história de cada pessoa está permeada por luzes e sombras, coerências e limitações que fazem parte importante do percurso pela vida. O crescimento humano e espiritual passa, não poucas vezes, por essas feridas que a vida vai cicatrizando. Muitas vezes o que parecia ser nosso “entulho” humano se transforma, por graça, em nosso melhor pedagogo espiritual!
No início de cada vocação vejo um mistério de amor e de graça. As pessoas são interiormente movidas e atraídas por uma paixão que faz fácil o que parecia ser impossível. Surgem, então, os encontros e alguns desencontros e mil perguntas que nem sempre tiveram respostas corretas. É o encantamento da graça!
Desse modo e com os olhos postos em Jesus se chega, num belo dia, a certa clareza mental que faz possível deixar o que sempre se fez e ir embora, para terras novas a serem descobertas e vividas.
Para acertar na vocação é preciso percorrer o caminho da gratuidade e da verdade. Nada se constrói sobre o egoísmo e a mentira e estes teimam continuamente por fazer parte da nossa vida. Se no decorrer dos anos alguém se torna egoísta ou ranzinza é porque perdeu o encanto do Evangelho e fechou o seu coração. Quem ama, não cansa nem perde os sonhos que o habitam!
Diante da carência de vocações e o envelhecimento de nossas famílias religiosas há o perigo de relativizar o acompanhamento e os critérios de admissão. Isso prejudica o candidato e a vida consagrada, pois toda vocação religiosa é iniciativa gratuita de Deus, uma proposta misteriosa que exige resposta generosa.
Lembro-me de dois jovens vocacionados (?) que me perguntaram o que a Companhia de Jesus poderia oferecer a eles… Escutei chocado e apenas respondi: Oferecer?… Mas, o que vocês podem dar à Companhia de Jesus!… Nunca mais voltaram!
A vocação não é promoção social nem decisão de momento, mas ponto culminante de um processo de crescimento humano e espiritual. As vocações tipo “relâmpago”, aquelas que “brilham” muito e fazem bastante “barulho”, costumam acabar escandalosamente cedo, pois não tem relação alguma com a história da pessoa ou da instituição. Igualmente, devemos ter cuidado com aquelas tipo “possivelmente, provavelmente…”: “possivelmente vai melhorar no futuro…” A vida costuma complicar mais o que já agora parece ser difícil. Candidatos sobre os que se têm dúvidas sérias, não deveriam ser admitidos.
É preciso estar apaixonado pela pessoa e a proposta de Jesus para decidir livremente a vida, colocando-se a serviço dos outros, sem contabilizar ganhos ou perdas interesseiramente.
Muitos jovens sentem no coração o desejo de se oferecer ao Senhor por inteiro, mas poucos concretizam esse desejo. O que falta? Discernimento? Capacidade? Coragem? Anos atrás, quando partia para o Noviciado dos jesuítas, escutei uma voz interior que me fortalecia: “Não tenha medo! Você não é o primeiro e também não será o último!..” Se não damos o primeiro passo, jamais chegaremos a lugar algum.
Toda vocação passa pelo crivo da purificação. É necessário burilar arestas, corrigir motivações e ações, para ser mais honesto nas formas de amar.
1. A luta do coração. O coração é o primeiro a sofrer. São tantas as amarras que temos! As grandes rupturas e os combates acontecem no fundo da alma. Além disso, nossa história pessoal também guarda experiências afetivas que marcaram negativamente. Esses registros devem ser partilhados e trabalhados, antes da eleição do estado de vida (matrimônio, ministérios ordenados, vida consagrada…). Haja coração! Não temer o passado e viver plenamente o presente é sinal de maturidade. Os maiores conflitos no percurso vocacional ocorrem quando o nosso “eu” profundo não consegue sintonizar, por dificuldades afetivas, com os “valores” evangélicos almejados.
Se alguns erram por não concretizar os valores outros o fazem por estarem excessivamente centrados em si mesmos. Uma vida harmoniosa evidencia a reciprocidade positiva entre o que se é e o que se escolheu viver. Pessoas distraídas, agressivas ou acanhadas demonstram, com suas atitudes, dificuldades afetivas ainda não bem elaboradas.
Neste mistério da vocação já encontrei pessoas que querem, mas não podem e outras que podem, e não querem. Não basta, pois, o desejo da vontade; é preciso igualmente as aptidões humanas e religiosas que possibilitem tal anseio. A possível entrada numa comunidade religiosa pressupõe uma observação cuidadosa das aptidões e disposições do candidato, já que a vida só se decide após uma leitura atenta das experiências mais significativas, positivas e negativas, que fizemos. Conhecer a própria “Teografia” (Theo = Deus; grafia = sinais, marcas destacadas…), isto é, as “marcas” mais significativas da vida, permite pôr-se a caminho com segurança.
Desse modo, nos encontraremos aptos para bater, um dia, nas portas de uma instituição. Neste momento, o discernimento pessoal se confrontará com um “outro discernimento”, o de uma outra pessoa ou instituição. Se para casar precisa de uma aceitação mútua, a vida religiosa exige outro tanto: a decisão do candidato e a da instituição (Congregação Religiosa, Diocese, etc.). Quando ambos discernimentos coincidem se concretiza realmente a própria vocação.
2. A luta da razão. Para decidir a própria vocação, não só o coração está em jogo, mas também a razão. Precisamos conhecer bem, antes de decidir. Conhecer a instituição como também a si mesmo; as motivações válidas que temos e as que não queremos. Nessa diversidade a razão buscará as positivas e basilares, aquelas que permitem a escolha certa.
Há motivações conscientes e adequadas e outras inconscientes, adequadas ou não. As primeiras podem ser meramente humanas, mas sempre devem ter um viés sobrenatural, pois a teologia é inseparável da antropologia e a graça das pessoas. As motivações inconscientes podem ser até inadequadas, mas quando vão acompanhadas das conscientes e positivas, não prevalecem e fazem possível a própria vocação.
Quando alguém opta por uma vocação deve estar consciente não só das suas próprias fragilidades, como também das exigências que essa vocação comporta. Não há uma vocação melhor ou maior, mas aquela que me permite viver em paz e com generosidade.
O “acompanhante vocacional” ajuda o vocacionado a perceber a coerência integradora ou a inconsistência dispersiva na vivência dos valores. O seu próprio “eu” vive tranquilamente os “valores” almejados ou, pelo contrário, experimenta grande desgaste e sofrimento?
É fundamental colocar-se de modo coerente diante de si, dos outros e de Deus. Desse modo, cresceremos nas dimensões básicas do ser humano: física, intelectual, afetiva, social, moral e espiritualmente.
3. Acompanhando vocacionados. Acompanhar vocacionados/as é uma grande graça. Sei que alguns não se acham aptos para este ministério, mas todos deveríamos saber escutar os mistérios profundos do coração humano. Ninguém tem que dizer o que o outro deve fazer, mas ser um espelho onde o outro possa se enxergar e decidir com maior liberdade o que fazer.
A vocação “verdadeira” abre as pessoas para o novo e o diferente. O acompanhamento vocacional centra-se principalmente na partilha do chamado inicial e, só depois, no crescimento realizado e na perseverança no caminho optado. Quem deseja a vida religiosa apresenta alguns sinais “externos” que podem ser conferidos e avaliados.
O acompanhamento vocacional tem um tempo determinado e culmina com a tomada de uma decisão livre e madura, sem medos do que é deixado de lado. Uma decisão apressada é presságio de uma crise desnecessária.
A vocação se situa na realidade concreta de cada pessoa, por isso é preciso conhecer e integrar a incoerência mais profunda. Provavelmente é por meio dela que o Senhor chama. Conheço pessoas que fizeram das suas limitações degraus para se aproximar mais do Senhor, e outras que se afogaram e se perderam nelas. Daí a importância de integrar a própria afetividade (família, amizades…) e sexualidade (experiências, responsabilidades…). Quem acompanha deve prestar atenção as motivações verdadeiras apresentadas e que contem os seguintes aspectos:
· Intenção reta e motivação sobrenatural explícita.
· Experiência pessoal de Deus (oração com a Palavra e vivência sacramental).
· Desejo de fazer parte de uma instituição determinada (Diocese, Congregação religiosa, Instituto, etc), aberto sempre às suas propostas.
· Atitudes e gestos coerentes com a moral e o Evangelho.
· Transparência com o/a acompanhante.
Para saber se um comportamento está certo ou errado eticamente é preciso confrontar as atitudes apresentadas com a pessoa e a proposta de Jesus.
Há também motivações inválidas, insuficientes ou inadequadas, que carregam motivos infantis (primado do emocional…), mesquinhos ou utilitaristas (fuga, busca de estudos ou prestigio…)
Contudo, é possível que Deus se sirva de motivações inconsistentes, para convocar aquele que é chamado para um autêntico seguimento de Jesus. Deus sempre escreve certo embora, não poucas vezes, com linhas muito tortas!
Pelo que dissemos, parece não ser suficiente uma escolha de vida por intuição ou aproximativa, pois o verdadeiro discernimento exige reconhecer a intervenção explícita de Deus na vida de uma pessoa, predispondo-a para viver com generosidade e gratuidade, pois a vocação consagrada não tira ninguém do mundo, mas o coloca no meio dele de uma outra forma.
O tempo me ensinou que na prática todos somos animadores ou desanimadores vocacionais!

