A Mística Inaciana numa Sociedade Consumista

consumismoA MÍSTICA INACIANA NUMA SOCIEDADE CONSUMISTA
Pe. Adroaldo Pallaoro sj

“As outras coisas sobre a face da terra são criadas para o ser humano e
para o ajudarem a atingir o fim para o qual é criado” (EE. 23)

Vivemos numa sociedade asfixiada pelo consumo. As armadilhas do consumismo invadem todos os ambientes e provocam uma reviravolta no sistema de valores. A obsessão cega do querer “ter” cada vez mais para poder “consumir”, e consumir constantemente, representa o ideal social.

Somos bombardeados pelo poder da publicidade, para quem o “ter” e o “prazer” de consumir se convertem em objetivos e imperativos da vida de todo cidadão. Formou-se uma mentalidade de que quanto mais se consome mais se tem garantias de bem-estar, de prestígio e de valorização, já que na atualidade as pessoas são avaliadas pelo que possuem e não pelo que são. Muitas pessoas compram produtos e serviços sem necessidade, num processo de compulsão, para estar na moda, para mostrar que podem mais. Os produtos são rapidamente dispensados, conside-rados obsoletos pela propaganda, para dar lugar a um novo consumo. A cultura do descartável, além de poluir o planeta, cria uma mentalidade de substituição compulsiva em que nada deve ser “durável”.

O ser humano é um ser de desejo, e os desejos não tem limite. E na ponta dos desejos estão a posse e o domínio sobre as “coisas”. Consumir consegue unir estas duas paixões. Primeiro, apropriamo-nos das coisas. O ego se satisfaz altamente na abundância dos bens. Em seguida, mostra o domínio sobre elas, usu-fruindo-as à saciedade. Esta é a armadilha mais perversa do consumismo: transformar os desejos em necessidades, dinamizar os desejos com tanta sedução para que se convertam em necessidades fortemente sentidas, e que não são precisamente vitais, mas meramente supérfluas e banais.

O consumidor se prende aos desejos e chega a esquecer suas verdadeiras necessidades. Esse mecanismo inconsciente esteriliza também a possibilidade da solidariedade e da partilha. Se nos-sos desejos são sentidos como necessidades, sempre estaremos tendo necessidades e nenhuma riqueza será suficiente para que satisfaça nossas necessidades e sobrem bens para serem compartilhados.

Esse comportamento gera um estilo e um conceito de vida que petrificam nossa sensibilidade e nos impe-dem viver os valores evangélicos essenciais. O consumismo reduz cada vez mais o espaço da solidarieda-de, da gratuidade, da comunhão de bens…; anestesia a pessoa que se esgota no trabalho porque sua vida depende das “coisas desejadas, idolatradas”, verdadeira obsessão; escurece os horizontes do espírito, e, sem luz, o consumidor não consegue ler os vestígios nem a presença viva de Deus “em todas as coisas”.
“Vivemos em uma economia de mercado que coloca o aspecto financeiro acima de todos os demais e transfor-ma tudo em mercadoria, que valoriza pessoas pelo seu padrão de consumo, que cria vícios de acúmulo do supérfluo como forma de alguém se sentir importante. Isso ameaça pobres e não-pobres, sacrifica famílias, deforma valores e torna as pessoas vulneráveis a uma propaganda consumista insaciável” (CF, texto base, 61).

A espiritualidade inaciana toma posição clara diante das “coisas”. Nossa relação com elas é um dos temas estratégi-cos nos Exercícios Espirituais; é um tema que perpassa todo o caminhar do exercitante e está presente nas meditações e considerações centrais de seu processo.

S. Inácio apresenta as “coisas” como problema central para conquistar a “liberdade de” e dar sentido radical à “liberdade para”, colocando em ordem os afetos desorde-nados, e possibilitando atingir a verdadeira finalidade da vida. Se o consumismo impõe como objetivo e ideal o ter, a espiritualidade inaciana pretende nos libertar desta paixão para pôr tudo a favor do autêntico “ser”.
As “coisas” não são desprezíveis ou carentes de valor, mas nossa relação com elas está em função de seu potencial dinâmico para nos ajudar naquilo que buscamos acima de tudo.

S. Inácio, ao mergulhar na dinâmica da fé, se aproxima e reflete sobre todas as “coisas” que o cercam, reconhecendo-as em seu verdadeiro lugar, valor e sentido. As “coisas” nos são apresentadas como permanente ofertas tentadoras. O que interessa a S. Inácio é a atitude e o comportamento afetivo interior de cada pessoa com respeito a elas. As “coisas” existem, estão “ordenadas” para colaborar com o ser humano, são um meio para que ele possa atingir seu fim: viver a relação plena com Deus Amor.

A sábia regra mestra de nossa relação com as “coisas” está definida no uso do “tanto…quanto”, ou seja, “que o ser humano há de usar as coisas tanto quanto o ajudem para seu fim, e deve afastar-se delas tanto quanto sejam empecilho para isso” (EE. 23). S. Inácio não se afasta das “coisas”, usa-as “tanto…quanto”, procura nelas não o consumismo, mas seu potencial de meios, e as contempla para nelas descobrir os vestígios, as evidências de que são sinais do amor e da presença de Deus; e, através delas, chegar ao encontro com Ele.

As criaturas não são puro objeto de consumo, porque Deus “se diz nelas, e ainda que não se esgote em nenhuma, nem em todas juntas, todas O refletem”.  Por isso mesmo “podemos procurar, achar e amar Deus em todas as coisas e todas n’Ele” (S. Inácio, Const. 288). Para que essa preferência seja absoluta, devemos “fazer-nos indiferentes” diante de todas as coisas que aprisionam nossa afeição, porque não nos ajudam a atingir o fim a que nos propusemos como sentido de nossa vida.

S. Inácio, nos Exercícios, nos ajuda a mudar a imagem do “mundo” e das “coisas”, a perceber o mundo de outra forma, a vê-lo com os olhos de Deus e a descobrir nele e na história a presença, a ação e o amor do Criador.

O mundo onde vivemos e o cosmo que nos envolve são “dom” de Deus para a humanidade. Não é o inimigo de quem devemos fugir; é o espaço de Deus e de sua relação conosco e nossa com Ele, onde “Deus trabalha” para nós, onde podemos encontrá-Lo e ter acesso a seu amor. Não é o lugar para a espoliação e a devastação, mas para o louvor e o serviço a Deus. Não foi feito para o consumismo, mas para a vida; não é para que uns poucos se apropriem dele como donos, mas para todos abrigar e alimentar; não é campo para a guerra, mas para a convivência fraterna, a solidariedade, a justiça e a paz.

 “Deus, a quem tentamos apreender através do tatear de nossas vidas, este Deus se encontra  tão espalhado e é tão tangível quanto uma atmosfera que nos banhasse.
 Por todo lado Ele nos envolve, como o próprio Mundo. Que lhes falta, pois, para que possam  abraçá-Lo? Só uma coisa: vê-Lo” (Teilhard de Chardin).

 “Há dentro de nós uma chama sagrada coberta pelas cinzas do consumismo, da busca de bens  materiais, de uma vida distraída das coisas essenciais. É preciso remover tais cinzas e  despertar a chama sagrada. E então irradiaremos. Seremos como o sol” (Leonardo Boff).

Para desenvolver essa capacidade de olhar e contemplar, com olhos críticos e místicos ao mesmo tempo, S. Inácio nos ajuda a refletir, meditar, considerar nossa própria situação no mundo, nossas relações com tudo o que existe, a atitude no nosso contexto social, as coisas de que podemos dispor e o uso que devemos fazer delas, partindo da certeza de que tudo o que existe é dom de Deus e meio para alcançar o fim para o qual fomos criados.


Publicado em 15 de março de 2010 às 10:36, por Fabiana Palma Pires - ASCOM ETE FMC.
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