A Lógica Perversa do Dinheiro

A LÓGICA PERVERSA DO DINHEIRO
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Cf. Carlos Dominguez Morano, sj: A dinâmica psicológica dos Exercícios
“Não se pode definir o dinheiro sem fazer referência a seu efeito sobre a conduta humana” (Skinner)

logica1Além de uma evidente e fundamental função de valor de troca que possui, são múltiplas e variadas as significações que o dinheiro pode chegar a desempenhar para cada um: meio com o qual ganhar afeto, um suporte de prestígio e segurança pessoal ou um instrumento poderosíssimo de poder sobre os demais, um meio de defesa e inclusive de ataque sobre os outros, um acréscimo de valia pessoal, tendências perversas de exibição e ostentação frente os outros…

De fato, nossa relação com o dinheiro nunca é mera e exclusivamente funcional, econômica, monetária, de valor de troca. Sempre há um “algo mais” no dinheiro e em nossa vinculação com ele. A história de cada um foi marcando essa relação com um colorido afetivo e emocional específico, que entra sempre em jogo, determinando uma lógica particular mais ou menos sã, mas que facilmente pode chegar a ser autenticamente “perversa”.

Provavelmente, poucas relações com o mundo material de objetos estão tão “carregadas” afetivamente como esta do dinheiro. A atração, o apego, a dificuldade para desprender-nos dele… e, muitas vezes, uma forte ambivalência, ou seja, uma polaridade de sentimentos e afetos contrários em relação com esse objeto que progressivamente foi se fazendo tão determinante em nossa existência. Compreender as vinculações íntimas que todos mantemos na relação com o dinheiro nos ajudará a compreender, sem dúvida, a lógica perversa que pode ser desencadeada na relação consigo, com o outro e com a criação.

O “amor ao dinheiro” quando se impõe para além de suas específicas funções de troca, revela dimensões enlaçadas ao passado infantil de nosso mundo afetivo. De modo particular, àquelas mais diretamente associadas com o narcisismo e a onipotência infantil. É um amor, portanto, que, em maior ou menor grau, manifesta uma dinâmica na qual não se alcançou um adequado desenvolvimento da afetividade e na qual sobressaem os aspectos mais arcaicos do desenvolvimento afetivo.

Ter dinheiro, reter o que ganhou, acumular mais e mais, pretende satisfazer necessidades narcisistas, numa tendência egocêntrica, que resiste e se nega a abrir-se ao exterior para entrar numa dinâmica de intercâmbio e doação. A avidez pelo dinheiro pode também simbolizar, para a pessoa, uma espécie de alimento com o qual acalmar determinadas ansiedades primitivas ou compensar determinadas carências das primeiras fases do desenvolvimento afetivo.

Tudo isso se aclara em boa medida a partir de algumas conexões existentes entre o dinheiro e determi-nadas estruturas de nosso mundo afetivo que a psicanálise nos evidenciou. Efetivamente, são muitos os fatores inconscientes implicados nesta relação, elementos que escapam ao nosso conhecimento e controle, mas que estão aí determinando de mil modos e maneiras nossa relação com o dinheiro.

Em si mesmo o dinheiro  não satisfaz diretamente nenhuma necessidade primária. Mas, sem dúvida, ele é o mais importante na hora de explicar e controlar o comportamento humano, já que, mediante ele, podem ser satisfeitas muitas dessas necessidades primárias, desde a fome e a sede até as necessidades de afeto, consideração, prestígio ou, inclusive, as de caráter estritamente sexual.

O dinheiro se converte, assim, em um “reforçador” chave do comportamento humano e em um instrumento fundamental para o controle social das condutas pessoais. O resultado é que, com muita freqüência, o comportamento com respeito ao dinheiro chega a adquirir caracteres autenticamente irracionais.

O dinheiro chega facilmente a constituir-se em um objeto ao qual lhe é conferido “qualidade de eu”. Algo assim como se fosse uma parte de nós mesmos, uma prolongação ou um objeto que tivesse sido desprendido de nosso próprio ser. Algo que está fora, mas que consideramos como que devesse estar dentro. Pela mesma razão, “propriedade” vem a significar coisas que de fato não pertencem ao eu, mas que deveriam pertencer, uma extensão da própria realidade pessoal.

O dinheiro, então, com essa “qualidade de eu”, se constitui num tema bastante importante na dinâmica pessoal e facilmente problemático também: perder dinheiro, dá-lo em troca, doá-lo, constituem atos de despojamento que já não podemos considerar como mera perda de um objeto exterior, senão também de algo que foi previamente “in-corporado”, ou seja, de algo intimamente relacionado com nosso eu. Conseguir dinheiro, acumulá-lo, retê-lo… é vivenciado pela mesma razão como um modo de assegurar, engrandecer, estender a força do eu.

No amor “perverso” ao dinheiro, não se trata já de “ter algo”, mas de “ter-se a si mesmo” numa ten-dência de orientação marcadamente centrípeta. A pessoa fecha-se sobre si mesma em uma totalidade que quer negar sua necessária referência ao exterior; com isso, ela pretende cobrir uma carência interna e conquistar uma segurança. Mas, na realidade, a pessoa está se situando na posição mais insegura que se possa imaginar, pois “se sou o que tenho e o que tenho se perde, então quem sou?” (E. Fromm).

O problema se torna mais agudo se levamos em conta que, por ser uma questão de amor a que nos liga ao dinheiro, e de amor com fortes raízes inconscientes, na relação com ele cabem tantos auto-enganos como os que caracterizam todas as questões afetivas profundas. O auto-engano se faz fácil.

As falsas justificações mediante sofisticados mecanismos de defesa (racionalização) conservam o objetivo de permanecer amorosamente vinculado a esse dinheiro convertido em fetiche de segurança, de valia pessoal, de poder sobre os outros, etc.

Poucos campos tão propícios à “tentação”, ou seja, a de apresentar-se à consciência como algo bom, justo, prometedor; na realidade é o contrário,  armadilha e fonte de destruição.

Porque o dinheiro tem um caráter “pegajoso”, possui uma sinistra aderência que, na medida em que mais se fixa, maior vai sendo sua força para atrair novas camadas. Finalmente, acaba-se por criar uma dura cortiça que defende e isola a pessoa do entorno e que a aliena numa insensibilidade para com tudo aquilo que não seja sua própria realidade.

O problema da relação com o dinheiro se intensifica se levamos em consideração que, junto a estes fatores pessoais, é preciso acrescentar a influência e a determinação tão fundamental que vem do meio ambiente sócio-cultural. Nosso desejo não é alheio, certamente, às dinâmicas culturais nas quais este necessariamente se desenvolve, cresce e pode encontrar seus objetos de satisfação. Por isso, a dinâmica econômica de nossos dias deve ser levada muito em conta à hora de compreender as vias pelas quais circulam nossos vínculos com o dinheiro.

De fato, ela atua como propulsora importante das vertentes mais regressivas dos comportamentos com o dinheiro. Por isso, pode-se afirmar que é muito mais a “função real” do dinheiro que vem influir e condicionar a dependência perversa que se pode estabelecer na relação com ele, já que são essas condições sociais as que determinam, em grande medida, o alcance e a intensidade das tendência pulsionais de retenção e acumulação. As pulsões infantis se transformam em um desejo de alcançar riqueza somente sob a existência de condições sociais específicas.

Por isso, conquistar uma autêntica liberdade frente à fascinação do dinheiro supõe conquistá-la em um dos lugares mais decisivos da existência. Não é fácil, sobretudo se temos consciência das implicações afetivas conscientes e inconscientes anteriormente assinaladas. Como também pode-se afirmar que perder a liberdade frente ao dinheiro implica perdê-la em frentes muito amplas. É uma rede que, facilmente, acaba se convertendo em cadeia.


Publicado em 18 de fevereiro de 2010 às 16:37, por Fabiana Palma Pires - ASCOM ETE FMC.
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