A CAMINHO DA INTEGRAÇÃO PESSOAL
J. Ramón F. de la Cigoña sj
E-mail: ramonsj@ete.g12.br
É bom dar nome às nossas experiências positivas e negativas, pois facilmente apresentamos umas e escondemos as outras. Vivemos um dilema: temos fome de amor e ao mesmo tempo experimentamos dificuldades sérias nos nossos relacionamentos interpessoais. Por quê? Será que não conseguimos expressar adequadamente o nosso amor? Não é fácil ter familiaridade com alguém e por um tempo prolongado e essa constatação nos obriga a aprofundar o tema.
No decorrer da vida encontramos pessoas com muitos e diversos problemas de tipo emocional: Agressividade, autoestima baixa, identidade sexual difusa, carências ou dependências afetivas, infidelidades são algumas delas. Contudo, todas têm algo em comum a nível inconsciente: fome de relacionamentos humanos mais próximos e adequados, mas que no decorrer da vida se desgastam.
Para satisfazer essa fome de amor truncada precisamos abordar o processo de crescimento pessoal e considerar a sexualidade humana globalmente e não apenas identificada com a genitalidade. A sexualidade é fonte de vida nas relações interpessoais Relacionamentos fracos são fruto de uma personalidade anêmica. Aprofundemos nesta realidade profunda, forte e misteriosa que nos acompanha desde a nossa gestação.
Para começar, umas perguntas: Sente-se bem com o seu corpo?… Partilha frequentemente seus sentimentos em profundidade?… Há algo que o incomoda? As respostas provavelmente não são simples, pois entre o sim e o não, cabem outras muitas considerações.
Um pressuposto básico: o desenvolvimento psicossexual é a terra onde nascem o amor, a integração pessoal e o mistério da intimidade. Tome, pois, a sério o próprio conhecimento.
Um dia alguém me disse: o importante não é o que fizeram comigo, mas o que eu faço com aquilo que me fizeram! Há pessoas que não conseguem sair do seu passado ferido, gostariam de se sentir mais seguras e de se relacionar de um modo mais adequado com todos, sem dependências ou agressões emocionais, mas não o conseguem. Traumas antigos e desconhecidos e feridas afetivas abertas, o impedem.
Não é fácil amar e ser amado, embora todos nascemos com essa experiência e desejo. Satisfazer essa fome é um processo longo e que deve ser construído devagar e conscientemente. Não bastam as boas intenções, força de vontade ou convicções religiosas; é preciso seguir um processo começado bem antes do nascimento. Cada etapa do nosso crescimento (pré-natal, infância, puberdade, adolescência, juventude e fase adulta) tem desafios próprios e depende positiva ou negativamente da fase anterior. Interromper o processo traz consequências sérias para a qualidade dos relacionamentos. Com quê facilidade repetimos o negativo!
O caminho para a integração pessoal é uma experiência positiva e perdura a vida toda. Precisamos crescer em “tamanho, sabedoria e graça”, para transcender a negatividade das próprias limitações e se relacionar com maior bondade e misericórdia. Agressividade e teimosia já evidenciam numerosas carências.
1. Fascinação cósmica. No início Deus disse: faça-se a LUZ!… Esse foi o mandato divino no começo da Criação e também o principal desejo de Deus para cada um de nós. Por que não identificar essa “Luz” divina com a energia que nos habita? Há pessoas “iluminadas” e outras, por desgraça, “apagadas”.
Recordemos os estudos científicos: o universo começou faz uns 6 bilhões de anos… Naquela primeira explosão de energia cósmica, naquele primeiro estouro de Luz estavam já contidas todas as forças criadoras. Daquele fulgor inicial brotou a misteriosa combinação de moléculas que, bilhões de anos depois, dariam um salto qualitativo originando a vida nas suas diversas formas e, também, à maravilha do corpo humano com o fogo do seu encanto e paixão, o milagre da consciência humana, a imaginação sem limites e a força do amor. Todos tiveram sua origem naquela primeira explosão. Tudo é manifestação daquele fogo criador original e expressão daquela Luz primeira.
Os físicos de hoje dizem que todo o universo, desde a luz das estrelas até o sussurro dos namorados, tem sua origem naquela primeira fonte de Luz. Todas as formas de vida e os seus sistemas complexos decorrem daquele primeiro estouro de energia criadora. Como crentes, colocamos Deus como fonte e origem desse primeiro fogo… O Credo Niceno fala de Cristo ressuscitado como “Deus de Deus e Luz da Luz…” Cada um de nós participa, com razão, da segunda parte desse enunciado. Tudo tem sua origem na Luz esplendorosa do ato criador de Deus. Somos realmente “luz da Luz”, energia da Energia, amor do Amor e fogo do Fogo.
Esse “fogo divino” que não se apaga se manifesta de muitas maneiras no cotidiano de nossas vidas. Ele está presente no abraço de um amigo, no olhar apaixonado dos namorados, nos olhos emocionados dos pais quando pegam seu filhinho recém-nascido ou no semblante transfigurado daquele que ora e se entrega gratuitamente no serviço fraterno. Tudo é luz da Luz, pois somos filhos das estrelas!
A presença do “fogo divino” se manifesta no trabalho do operário, mas também na energia da união das pessoas e das coisas. Desde o início, algumas forças agem e não se extinguem e, a mais conhecida é a “Lei da gravidade”, esse poder misterioso de atração que existe em todo o universo. A “Lei da gravidade” é o nosso modo de falar ao nos referir a essa misteriosa “energia de atração” que se encontra por toda parte. O instinto animal e o amor humano fazem parte dessa atração misteriosa.
O amor como também a energia sexual são uma manifestação concreta dessa força relacional que invade o universo. Cada pessoa é uma réplica fiel da expansão do universo e da evolução da humanidade. O corpo humano é uma síntese microcósmica do imenso ato da Criação. A luz, a atração, o mistério, a energia vital, o amor o encontramos sobretudo nas dimensões psíquicas e espirituais do ser humano.
Pelos genes e pelo inconsciente coletivo temos acesso ao desenvolvimento biopsíquico da humanidade. Há uma História que subsiste por trás das nossas pobres e limitadas histórias pessoais e ela faz sempre referência ao fascínio que une as pessoas. No nível psicológico como no biológico, esta energia de “atração” é fundamental na experiência humana. A “Lei da gravidade”, a força da atração cósmica está enraizada no nosso coração e também nos nossos genes. O desejo de se achegar ao outro é parte integrante dos relatos humanos e manifestam a vontade de ser e viver. Por trás dos nossos pequenos e grandes desejos está sempre a busca da Fonte Primeira, aquela Luz da qual procede toda outra luz. “Em Ti está a origem da vida; em tua luz vemos a Luz!” (Sl 36, 9).
“Faça-se a Luz” é um modo poético e teologal de dizer faça-se a energia, desenvolva-se o universo, brote a vida, surja o amor… Surja o zelo profético, a imaginação criadora, a convicção ardente, o ritual do amor, a paixão. Só há uma Fonte divina e dela brotam todas as outras formas de energia.
2. A história psicossexual. Às vezes, alguns se sentem como desterrados de seus melhores sonhos e sentimentos, incomodados com sua história, o seu corpo e até pelo tipo de sentimentos e relacionamentos experimentados ou vividos. Alguns até se sentem culpados pelo “fascínio” experimentado no decorrer da sua história. Poucas dimensões da vida são tão vulneráveis como essa busca de intimidade, pois as sensações psicossexuais são muito pessoais e particulares.
É verdade que nos momentos mais difíceis da vida podemos encontrar consolo nas nossas crenças, mas isso não acontece quando está em jogo a sexualidade. Isso é dramático! Provavelmente, e por causa das nossas crenças podemos sentir vergonha, traumas e até autocondenações no campo da sexualidade. Sejamos claros, não é Deus que reprova, mas o superego prepotente e internalizado que desaprova.
Como superar, pois, esses sentimentos negativos de rejeição e autocondenação? Como cultivar o sentido de responsabilidade pessoal sem cair na baixa autoestima ou nos remorsos degradantes? Observar com reverência a própria história e situar-se objetivamente diante da própria vida, já é um bom início e ajuda. Há um nexo vital entre Deus e a vida, entre o sagrado e o humano que não pode ser negligenciado ou desprezado. É preciso passar do sentimento de ruina pessoal para a sanação das feridas do corpo, da alma e do coração, para entrar em comunhão com tudo e todos.
É verdade que cada vida encerra na sua história outras muitas de ordem familiar, educacional, religiosa, laboral e emocional, englobando uma série de circunstâncias, acontecimentos, experiências e opções que nos fizeram chegar ao nível atual de consistência ou desintegração pessoal.
Refazer a própria história é entrar em contato com as lembranças dos relacionamentos humanos experimentados. Lembrar do despertar físico e emocional, anseios, medos, sentimentos, desejos, dependências e frustrações, abre passo para uma reciprocidade afetiva responsável e de maior intimidade. Nesta luta, muitos acabam machucados pois contabilizam mais derrotas do que vitórias. A história psicosexual tem a ver com a “contabilidade” emocional que fazemos desses relacionamentos e oxalá sejam quase sempre positivos.
O conhecimento pessoal e a aceitação do próprio “eu” são fundamentais no caminho do crescimento humano. A história positiva ou negativa dos nossos relacionamentos exerce uma poderosa influência na própria autoestima. A valoração pessoal afeta a capacidade de nos relacionar adequadamente, de agir juntos ou separados ou mesmo de experimentar atração ou abandono diante de Deus e dos outros.
A história psicossexual é um “banco de lembranças” sentimentais que conserva todos os acontecimentos e experiências referentes ao desenvolvimento relacional. Quando conhecemos essa história, começamos a sarar o nosso passado e abraçar com maior empenho o presente.
Percorramos, pois, com ânimo e sem medo esse caminho de integração, aproximando-nos com reverência e misericórdia do caminho percorrido. A sexualidade, essa energia vital que envolve e aproxima, está muito próxima da essência do nosso ser. Ela dá forma à identidade de gênero e deixa transparecer algo daquela “imagem e semelhança de Deus”.
A história do próprio crescimento pessoal tem luzes e sombras que precisamos conhecer e até verbalizar sem receios. Dores escondidas e não superadas, temores ainda sem nome, sentimentos de culpabilidade ou vergonha provavelmente fazem parte dessa bagagem que precisa ser aberta e sempre acolhida. Tratar com reverência e carinho o próprio passado é fundamental.
Refletir sobre a própria história é transitar por caminhos luminosos e pisar terra sagrada, onde Deus plantou o seu amor. Por vezes, também nos deparamos com o mundo das trevas e com aqueles monstros “fantasiosos” por nós alimentados e cultivados. Se julgarmos com carinho e misericórdia o próprio passado os “fantasmas” da vida desaparecem e nos depararemos com a Luz divina que desde o início nos habita.
Os primeiros encontros com essa energia sexual têm a ver com o modo como nos criaram, alimentaram e trataram. Tudo isso impacta positiva ou negativamente o hoje da nossa vida. As “mensagens” verbalizadas ou não que chegaram dos nossos pais (ou daqueles que cuidaram de nós), dos companheiros de sala de aula, dos professores, etc., ficaram gravadas no nosso inconsciente. Algumas dessas “mensagens” foram claras e explícitas (palavras, gestos, atitudes…) e as recordamos, outras, provavelmente esquecemos e até ocultamos, mas elas repercutem ainda hoje na qualidade dos nossos relacionamentos.
Todos queremos uma integração humana melhor. Tudo conspiram para uma qualidade de vida. As cicatrizes corporais ou espirituais que carregamos são testemunhas da força e resistência do nosso ser. O caminho da sanação e integridade é possível. Não se pode mudar o passado, mas sim curá-lo e crescer positivamente encontrando pensamentos e atitudes que reafirmem o sentido e o valor da vida.
Permita-se um tempo para rememorar a sua história e permitir que as lembranças aflorem livre e espontaneamente, escrevendo-as. Depois, se quiser, partilhe com alguém da sua confiança o mais significativo do que escreveu. Lembre-se: a qualidade dos relacionamentos atuais revela de algum modo a luminosidade ou sombra que carregamos. Somos luz da Luz e filhos das estrelas!
Perguntas para refletir, orar, escrever e partilhar:
1. Experimentou alguma vez momentos de “exílio” emocional?… Que pessoas ou acontecimentos foram os autores desse seu exílio?…
2. Faça uma lista de 6 ou 7 acontecimentos mais significativos na história da sua vida psicossexual?
3. Quais as “mensagens” que recebeu na sua infância (verbais ou não) sobre a sexualidade?
